 privado, esbarrando contra a mobília
e batendo nas chamas. Era o rosto que mais o assombrava;
rodeado por uma auréola de fogo, com os cabelos em brasa
como se fossem palha, a carne morta derretendo e escorrendo
do crânio, revelando o brilho do osso que estava por baixo.
Qualquer que fosse a força demoníaca que animava Othor,
fora expulsa pelas chamas; a coisa retorcida que tinham
encontrado nas cinzas não passava de carne queimada e ossos
carbonizados. Mas em seus pesadelos voltava a enfrentá-la... e
dessa vez o cadáver ardente tinha as feições de Lorde Eddard.
Era a pele do pai que estourava e enegrecia, os olhos do pai
que escorriam pelo rosto como lágrimas de gelatina. Jon não
compreendia por que era assim, ou o que aquilo significava,
mas o assustava mais do que era capaz de exprimir.
- Uma espada é pagamento pequeno por uma vida - concluiu
Mormont. - Fique com ela. Não quero mais ouvir falar disso,
compreendido?
- Sim, senhor - o couro suave cedeu sob os dedos de Jon, como
se a espada já estivesse se moldando à sua mão. Sabia que
devia sentir-se honrado, e se sentia, no entanto...
Ele não é meu pai, O pensamento surgiu sem ser convidado
na mente de Jon. Lorde Eddard Stark é meu pai. Não o
esquecerei, e não importa quantas espadas me ofereçam. Mas
não podia dizer a Lorde Mormont que era com a espada de
outro homem que sonhava...
- Também não quero cortesias - disse Mormont -, por isso, não
me agradeça. Honre o aço com ações, não com palavras.
Jon fez um aceno com a cabeça.
- Tem nome, senhor?
- Em tempos passados teve. Chamava-se Garralonga.
"Garra", gritou o corvo."Garra"
- Garralonga é um bom nome - Jon experimentou um golpe.
Era desastrado e sentia-se desconfortável com a mão
esquerda, mas mesmo assim o aço pareceu fluir pelo ar, como
se tivesse vontade própria. - Os lobos têm garras, tal como os
ursos.
O Velho Urso parecia satisfeito.
- Suponho que sim. Imagino que vá preferir usar isso sobre o
ombro. E longa demais para a coxa, pelo menos até que
cresça um pouco mais. E será preciso praticar seus golpes com
as duas mãos. Sor Endrew pode lhe mostrar alguns
movimentos quando as queimaduras sararem.
- Sor Endrew? - Jon não conhecia o nome.
- Sor Endrew Tarth, um bom homem. Vem a caminho, desde
a Torre das Sombras, para assumir o cargo de mestre de
armas. Sor Alliser Thorne partiu ontem de manhã para
Atalaialeste do Mar.
Jon baixou a espada.
- Por quê? - perguntou, estupidamente.
Mormont resfolegou.
- Por que o mandei, o que acha? Transporta a mão que o seu
Fantasma arrancou do pulso de Jafer Flowers. Ordenei-lhe
que embarcasse para Porto Real e a apresentasse a esse rei
rapaz. Isso deve chamar a atenção do jovem Joffrey, julgo
eu... e Sor Alliser é um cavaleiro, bem-nascido, ungido, com
velhos amigos na corte, muito mais difícil de ignorar que uma
gralha com fama de grandeza.
"Gralha," Pareceu a Jon que o corvo soava vagamente
indignado.
- E, além disso - prosseguiu o Senhor Comandante, ignorando
o protesto da ave -, coloca mil léguas entre você e ele sem que
pareça uma reprimenda - sacudiu o dedo na cara de Jon. - E
não pense que isto quer dizer que aprovo aquele disparate na
sala comum. O valor compensa um bom bocado de tolice, mas
já não é um rapaz, independente da idade que tenha. Isso que
tem aí é uma espada de homem, e é preciso ser homem para
brandi-la. Espero que de hoje em diante desempenhe esse
papel.
- Sim, senhor - Jon voltou a enfiar a espada na bainha ligada
com prata. Mesmo que não fosse a lâmina que ele teria
escolhido, era de qualquer forma um presente nobre, e libertá-
lo da malevolência de Alliser Thorne era mais nobre ainda.
O Velho Urso coçou o queixo.
- Tinha me esquecido de como uma barba nova dá comichão -
disse. - Bem, não há como evitá-la. Estará essa sua mão
suficientemente sã para retomar seus deveres?
- Sim, senhor.
- Ótimo. A noite será fria e vou querer vinho quente com
especiarias. Arranje-me um jarro de tinto que não seja
demasiado amargo, e não seja sovina com as especiarias. E
diga a Hobb que, se voltar a me enviar carneiro cozido, o
mais certo é que eu o cozinhe. Aquele último quadril estava
cinzento. Nem o pássaro o tocou - afagou a cabeça do corvo
com o polegar, e a ave soltou um quorc de satisfação. -
Desapareça. Tenho trabalho a fazer.
Os guardas sorriram-lhe de seus nichos enquanto ia
serpenteando pela escada da torre abaixo, levando a espada
na mão boa.
- Bom aço - disse um homem.
- Você ganhou isso, Snow - disse-lhe outro. Jon obrigou-se a
sorrir-lhes de volta, mas não pôs o coração nos sorrisos. Sabia
que devia estar contente, mas não se sentia assim. A mão
doía-lhe, e tinha na boca o sabor da ira, embora não pudesse
explicar com o que estava irritado, ou por quê.
Meia dúzia dos seus amigos estava à espreita lá fora quando
saiu da Torre do Rei, onde o Senhor Comandante Mormont
residia agora. Tinham pendurado um alvo na porta do celeiro,
para que parecessem estar afinando a sua perícia como
arqueiros, mas Jon reconhecia tocaias quando as via. Assim
que surgi